Poucos são os veículos que conseguem durar mais de duas décadas nas linhas de produção mantendo boa parte de suas características originais. Sem entrar no mérito se isso é bom ou ruim, já que se um carro acaba sendo o mesmo por muito tempo ele pode ser acusado de simplesmente parar no tempo e não acompanhar a evolução natural do mercado, o fato é que mesmo assim ainda é difícil encontrar carros que tenham estas características. 

Toyota Bandeirante

Os que conseguem já merece ser elevados a condição de clássicos apenas por causa deste feito. Mas o Toyota Bandeirante tem alguns outros elementos que conseguiram elevar a condição do carro a de um grande clássico do mercado automotivo.

Longos anos

Olhando o manual original do Toyota Bandeirante, era possível encontrar uma frase no mínimo curiosa: “O Toyota Bandeirante foi construído para durar longos anos produzindo lucros para seu proprietário”. Poderia ser considerada apenas uma frase comercial para vender o veículo. Ou poderia ser ainda uma frase prepotente solta no material de apoio ao motorista. Mas acabou se transformando em uma espécie de profecia, já que esta frase realmente acabou não sendo desmentida pelos donos do carro e pelo mercado de um modo geral. Além disso, este tipo de frase ajudou a criar uma espécie de fama de indestrutível para o carro, que realmente acabou pegando.

Dentre as muitas famas que o carro tinha constava o fato que ele poderia rodar pelo menos um milhão de quilômetros sem que o motorista precise abrir o motor. Aliás, o próprio nome do carro já indicava que para este veículo não tinha tempo ruim, ele foi feito para enfrentar todas as dificuldades  que visse pela frente e não deixaria os seus donos na mão. E desta forma o carro passou a ficar bastante conhecido no Brasil, sendo que a montadora chegou a trazer ele para ser feito no País, mas antes mesmo dele ganhar o DNA brasileiro os motoristas já estavam familiarizados com o veículo.

Bandeirantes em pistas alternativas

Início da trajetória

Os primeiros modelos do Bandeirantes chegaram ao Brasil no início da década de 50, sendo eu eles chegavam aqui no Brasil apenas importados e era montado pela empresa Alpagral. Foi já no finalzinho da década de 50, mais precisamente em 1958 que  carro passou a ser montado pela Toyota do Brasil,  que acabou assumindo a montagem de todos os modelos dos Land Cruiser, nome pelo qual seus jipes eram conhecidos no mundo. Nesta priemira fase do carro no Brasil o motor que podia ser encontrado era um seis cilindros movido a gasolina, sendo que três anos depois o carro acabou ganhando um outro motor, desta vez movido a diesel da marca Mercedes-Benz OM-324. E no ano de 1962 o carro passou a ser fabricado aqui no Brasil.

A Toyota na época que começou a produzir o carro no Brasil decidiu por terceirizar algumas partes da produção, o que era bastante comum na época. A carroceria do carro, por exemplo, era feita pela Brasinca. Além disso, o  Bandeirantes tinha uma opção de teto de lona que poderia ser adquirida como um item opcional. Outro item que também poderia ser comprado como opcional era a capota de aço, que começou a ser vendida um ano depois que o carro passou a ser fabricado no Brasil. Neste mesmo ano a montadora decidiu que iria fazer uma outra versão do carro, desta vez um modelo Picape do Bandeirantes.

O carro dificilmente conseguia passar impune pelas ruas, sem atrair a atenção não apenas dos curiosos mas da maioria das pessoas que não estavam tão acostumadas a ver rodando pelas ruas das principais cidades um modelo com linhas tão austeras. Além disso, o porte do carro era maior do que o do Jipe Willys, por exemplo, um carro que poderia ser colocado como concorrente do mesmo segmento do veículo da Toyota. Mas não era apenas no design do carro que ele mostrava toda sua força, mas realmente o desempenho do veículo era diferenciado para carros deste modelo naquela época. O veículo vinha com câmbio de quatro marchas, mas grande parte dos motoristas usavam apenas três, sendo que apenas duas delas eram sincronizadas (a terceira e a quarta).

Desempenho duro

De acordo com alguns testes que foram feitas na época por revistas especializadas, o carro tinha uma primeira marcha bastante curta, sendo que o motorista não conseguia perder muito tempo com ela porque ela perdia o folego na hora de embalar o carro. Ainda de acordo com os dados que foram observados durante os testes, o veículo saia de 0 e chegava aos 100 Km/h em 29,7 segundos.

Bandeirantes versão estendida

O mais interessante sobre o comportamento dos motoristas em relação ao Bandeirantes era que muitas características do carro, que poderiam ser considerados pontos negativos em outros modelos, acabaram sendo aceitáveis para as pessoas que investiam na compra de um destes carros da Toyota. Por exemplo, o barulho dentro do carro realmente poderia incomodar muita gente. Além disso, todos os passageiros dentro do carro pareciam sacolejar ao ritmo do motor. Mas o grande “barato” do Bandeirantes e que ninguém podia olhar para o design e esperar algo diferente. Ou seja, até nestas pequenas falhas o veículo se mantinha coerente com a sua proposta.

Os motoristas que tiveram a chance de pilotar o carro ou que ainda possuem um modelo destes na garagem dizem que a sensação que se tem ao pilotar um Bandeirantes pelas ruas da cidade seria muito parecida com a de um dirigir um caminhão antigo. Seja pelo barulho que ecoa dentro da cabine do carro, ou seja ainda pela rudeza da suspensão do carro, o fato é que ele realmente transmite uma sensação diferente. Mas ao contrário do que pode parecer o Jipe realmente não era um carro muito complicado de se dirigir.

Nas versões que foram sendo lançadas posteriormente as modificações foram em grande parte para tentar deixar o carro mais macio para dirigir, mas não tanto assim a ponto de descaracterizar o veículo. Uma das mudanças na engenharia do carro mais significativas aconteceu no ano de 1980, sendo que neste ano o cambio do carro foi alterado, colocando uma segunda marcha mais longa, e a primeira passou a ser ncorporada no uso urbano do utilitário, que ganhou também uma caixa de transferência, à semelhança do concorrente Willys.

Mas a Toyota sempre manteve a preocupação em não mexer demais no carro com estas atualizações. Foi assim durante duas década praticamente sem grandes alterações, mas no ano de 1994 o Bandeirantes acabou fazendo um retorno as suas origens ao receber novamente um motor Toyota importado, uma evolução em relação ao OM-364, adotado desde o fim da década de 80. Apesar de ser uma opção mais potente, esta mudança acabou desagradando alguns fãs da marca e do carro. Isso porque o grande problema é que o Bandeirantes, com todas estas modificações, acabou ficando mais rápido e macio mas menos durável, o seu grande trunfo. Ou seja, um dos clássicos mais durões de todos os tempos começou a perder o seu público justamente quando deixou de ser tão durão assim.

Bandeirantes versão refromada

Mesmo com as mudanças que foram feitas, quando comparado a outros carros que ficaram por mais de três décadas no mercado, o Bandeirantes pode ser considerado um dos mais conservadores. E este conservadorismo encontrava respaldo já que o carro tinha uma boa aceitação nas ruas, e consequentemente vendia bem, o que permitia a montadora deixar passar boa parte das tentações da evolução do mercado e manter o Bandeirantes o mais fiel possível com os primeiros modelos lançados.

De acordo com as informações que a Toyota possui,  durante os 43 anos do carro no mercado foram foram produzidas 103.750 unidades.